Centeio

Nada acontece por acaso, e este mini ser ter vindo parar às minhas mãos é prova disso.

Sim, sei que é “só” um coelho de 800g, mas o cuidado, o amor e a dedicação não se medem aos palmos, à espécie ou à raça. 

Nos seus primeiros dois meses de vida não crescia ao ritmo da irmã, descobri rapidamente que tinha algo, algo esse que, graças ao excelente acompanhamento, ganhou nome cedo:  um parasita no cérebro. À medida que foi crescendo apercebi-me que as mazelas eram mais do que muitas, mais do que físicas, neurológicas. A esperança era pouca. Muito ténue é o traço entre vida e morte quando tens um coelho que não pode correr ou saltar. Será que tem qualidade de vida? Sempre foi a pergunta. Será que podia ter agido de outra formo e as coisas seriam diferentes? Ela come, limpa-se, reage ao ver-me e ao ouvir a minha voz, refila comigo e é gulosa até mais não. Chega? Acabei por decidir que enquanto lhe vir vida, - e ver vida não é estar viva, é reagir, é refilar é querer auto cuidar-se é acalmar no meu peito - não sou capaz de a terminar. Já quis, confesso, mas não me deixaram e ainda bem, 1 ano depois disso ela ainda cá anda, e entre palavras de “ainda está viva? mas que resistente”, entre choros, mimos e vontade enorme de a ter saudável, a minha mente foi mudando a cada susto. 

De um desespero inicial nos primeiros momentos em que achava que a ia perder, chorar noites inteiras a desejar que ela ficasse, que não a queria deixar ir, passei a uma genuína vontade de querer o melhor para ela, seja o que isso for. De perceber a vida dela e de aceitar que, no tempo dela, quando ela quiser vai descansar. Sabendo que dei e dou o meu melhor todos os dias há mais de dois anos para lhe proporcionar a vida mais confortável possível.. E ela sabe. Sente todo o cuidado e mimo, mesmo não gostando de algumas das "maldades", de gotas nos olhos, medicação em seringa, dias e noites no hospital. Todo este processo foi doloroso, mas fez me crescer de uma forma impossível de descrever.

Por isso é que digo, embora não deseje a ninguém, ter um ser vivo deficiente ao nosso cuidado vai exigir de nós ferramentas emocionais e funcionais que nem sabíamos que tínhamos.  Alguns não as têm, efetivamente. Nem todos nascemos para cuidar e está tudo bem. É visceral, sabem? Aparece sem sabermos bem de onde e cresce sem sabermos bem porque, quando damos por nós já mudámos as rotinas, tratamos um ser vivo como se um ente querido fosse, amamos como amamos a família. Os dilemas éticos tornam-se bem mais do que perguntas filosóficas, tornam-se questões de amor e altruísmo. De perceber se os queremos connosco por egoísmo, porque não somos capazes de os deixar ir, ou porque realmente eles nos mostram que não vão desistir da vida e nós também não podemos desistir deles. Esta jornada tem sido assim, a cada novo dia e em cada rotina lhe percebo um novo traço de refilice e vontade de andar por cá. Eu só posso dormir descansada por saber que cuidei dela da melhor forma e que nada lhe faltou. Cresceu numa bolha de privilégios, mais amada do que muitas pessoas e ainda bem. Centeio, a perneta miss camões. Eterna e que deixa saudades por onde passa. Vou a consultas com a irmã Farrusca e as rececionistas perguntam se a Centeio está bem. É este o legado que esta minorquinha deixa, um exemplo de força e resiliência.


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