Personalidade deformada
Ele sentiu passar por si um vulto que se dirigiu ao sofá e sentou-se abraçada aos joelhos, balançou se sobre o seu corpo, com o mesmo olhar vazio que reflectia a sua alma rasgada.
Já passou uma semana desde que lhe bateu à porta, com os olhos já queimados do sal e rouca de tanto berrar a agonia de seu choro incessante.
Estava cada vez pior, magra, cara encovada, olheiras negras, nem uma palavra desde a madrugada em que decidiu, mais uma vez, de forma egoísta, cair com a cara no seu peito, em vez de se despedaçar no chão.
Ele só a abraçou, e conseguiu fazê-la sentir, embora sem o próprio saber, como só ele sabe, segura, agarrava-a como se sentisse a sua alma realmente desfeita e quisesse segurar todos os pedaços para que ela não se fraccionasse.
Na janela, a oeste, já se podia ver o sol na linha que separa a terra do céu, a sua cor alaranjada estava reflectida nas nuvens à sua volta.
-Fiz te canja, come por favor.
Ela olhou para ele, como sinal de agradecimento, sem uma única palavra, sem um único sorriso. Levantou-se caminhou até à cozinha, preparou uma tigela de sopa e sentou-se na mesa da sala, parecia um espírito angustiado preso num mundo que não queria, a energia à sua volta pesava tanto que até a ele se fazia sentir uma áurea sombria.
-Não aguento mais isto... de todas as vezes que me bateste à porta em estados lastimáveis, este, é sem dúvida o pior. Pela primeira estou apavorado e não sei o que te fazer.
Tu és a pessoa mais intensa que eu conheço, e quando as tuas emoções são melancólicas tu envolveste numa nuvem negra como carvão, o meu maior medo, é que caias, caias, caias tanto que essa obscuridade nunca mais te abandone. Não me interpretes mal, iria sofrer de todas as maneiras, mas sinto-te a fugir-me entre os dedos, estou a perder-te de uma maneira que me rasga por dentro mais do que nunca. Tenho tanto medo que esse cérebro entre numa degradação extrema, eu suportaria mais a tua morte física que espiritual, psicológica, como lhe queiras chamar. Acorda por favor.
Ela olhou para ele com os olhos baços, mas surgiu um esboço de sorriso, ténue e deformado.
-Eu caio muitas vezes, esta foi mais intensa, mas levanto-me sempre.
-Tinha saudades da tua voz.
Comentários
Enviar um comentário