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A mostrar mensagens de agosto, 2020

Girassol

Apreciava-o enquanto se vestia, manteve-se em tronco nu e acendeu um cigarro à janela.  Espreitei lá para fora e vi os altos girassóis olharem para mim, virei-me para eles como se fosse o sol e alimentei-lhes a beleza enquanto sentia os lençóis, ainda quentes, na pele desnuda. Voltei-me para ele novamente, à medida que os seus olhos me percorriam eu senti que ele sabia-me completamente nua, mais do que tirar-me a roupa, soube despir me de mim, pouco a pouco. Medos, preconceitos e julgamentos foram arrancadas por mãos ardilosas. Sempre soube que quem soubesse plantar e trabalhar a terra, saberia nutrir-me o corpo, nunca pensei que também fosse capaz de me alimentar a alma. Olhei para os girassóis uma última vez, "é bonito o que tu plantas", disse-lhe.

A decisão

Envolveu-me num abraço e eu não senti nada. Foi nesse momento que percebi que o meu Porto seguro, - feito de egoísmo, verdade seja dita - ruiu. Agarrei-me a mim e, enquanto sentia as lágrimas frias a cair-me no colo, pensei em como dói perder quem se ama, mesmo que ainda seja só um projeto de amor, uma hipótese em cima da mesa. Ainda ontem discutíamos sobre a maldade, se conta mais a intenção ou a ação, eu que sou mais "kantiana", ouvir que de boas intenções está o inferno cheio, imaginem, mas foi bonita a discussão, acreditem. É o que me custa, é que eu alimento-me desta estimulação, mas uma relação não. E Já não sobra intimidade para reverter a situação, e hoje, timidamente, quando lhe pedi que saísse, só pensei, minha querida Centeio, eu protegi-te em vida e tu proteges-me na tua morte, empurrando-me para uma decisão que estava tomada há muito tempo, mas sem coragem de se fazer sentir.