Autocarro 53A a sair na linha 3

Apanhei o meu primeiro autocarro do ano, Fátima - Lisboa Oriente.
Como gosto de andar de autocarro.


Assim que subi para a zona de passageiros comecei a procurar o lugar para me sentar, não o vi de imediato e uma senhora mostrou-me onde encontrar os números. Agradeci-lhe, parece que se surpreendeu com o meu sorriso rasgado, ou está habituada a ajudar ou não está habituada a que agradeçam por gestos mundanos, mas eu sou assim, toda e qualquer ajuda - até um simples sorriso estranho - merece o meu agradecimento.


Quando chego ao meu lugar esta lá um senhor estrangeiro, nem consigo reconhecer o que estou a ouvir quando ele se dirige, alguns bancos à frente, a uma mulher que fala a mesma língua.Indico-lhe que me quero sentar, ele prontamente se chega para o lugar da janela, procuro perceber e vejo que o lugar da janela é o meu. E agora, como explicar?


Não expliquei. Sentei-me simplesmente e arranjei desculpas para não pensar mais nisso, embora seja obstinada. Eu conheço bem este caminho, talvez seja a primeira vez que esta pessoa o faz, vai gostar de ir à janela, pensava eu. Coloquei os fones e relaxei no meu lugar.


Enquanto ainda me debatia mentalmente com o meu suposto lugar à janela, ouço o rasgar de um pacote de batatas fritas e de seguida sinto um toque de cotovelo no meu braço. Olho para o lado e lá está o meu companheiro de viagem, que não me conhece de lado nenhum, a oferecer-me a sua comida. (Claro que podíamos ter aqui um debate sobre o que consideramos comida, mas para mim e para todos os efeitos, este estrangeiro desconhecido ofereceu-me a sua).


Como é bonita a partilha gratuita, o gesto, independentemente de se aceitar ou não a oferta em si, vai muito além do básico ato de dar um pouco do que é nosso ao próximo, próximo esse que pode não ter nada. partilhar com o outro é tão importante, não só por ele poder precisar, como pelo calor humano e aconchego de alma que isso provoca. O saber que alguém se preocupa, que alguém reparou em nós.


A minha viagem de 2020 começa assim, acho que isto promete, gosto de observar o que rodeia de olhar atento, sentir, refletir e escrever com intenção. Desta vez não me prometo um texto todos os dias, ou uma mensagem de algo que me fez feliz. No entanto, não posso deixar de tentar escrever sempre que me faça sentido. Sempre que ouvir uma mãe a educar um filho, sempre que vir dois adolescentes a namoriscar num qualquer passeio a caminho da escola, sempre que andar de autocarro e sentir histórias nas corridas que as pessoas fazem para o tentar apanhar, nos fôlegos carregados ou até em olhares apagados na vida que existe no centro de cidade. Tudo pode ser observado e contado aos nossos olhos, basta interagir com o mundo de forma refletida, dar significado às coisas, colocar uma intenção nossa, sentir visceralmente e registar. Escrever.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Não preciso de ti

Recomeços.

Personalidade deformada