Pára, por favor, pára. Suplicava ela.



Ele segurou-a pelos braços, levantou-a no ar, atirou-a contra os frios lençóis da cama...
Cerrou as mãos, esmurrou consecutivamente o colchão enquanto se mordia.
Não aguentou.
Agarrou-lhe no frágil pescoço e apertou.Viu os olhos dela revirarem, sentiu na palma da mão a vida dela a ser sugada.
Parou.
Sentiu, em cada nó dos dedos, as lágrimas que lhe escoriam pela face.
Pára, por favor, pára. Suplicava ela.
Ele não parou, estava louco de raiva, como podia ela ter-lhe feito aquilo? Como podia chamar assim a atenção de outros homens? Como é que ela foi capaz? Olhava para ela e só a imaginava com outros, com dois, com três ao mesmo tempo. Ela não vale nada, enganou-o.
Ela só suplicava por perdão, ela só tinha olhos para ele.
Este excerto inquieta?
O que vos inquietou mais?
Terá sido a agressão?
Ou terá sido ela, submissa a pedir perdão?
E se eu vos disser que há pior?
No quarto ao lado ele nunca lhe levantou a mão. Mas matou-a.
Não vás. Fica. Fica comigo.
Alimentava-lhe o ego de forma inversa. Sabia cada pormenor seu. Sabia como a quebrar. Segurava-a nas suas mão e apertava-a. Arrastava-a. Apertava-a.
Isso fica te mal.
Não uses.
Não vais.
Nunca mais te falo.
Nunca mais me vês.
Queres ir onde?
Não sei...
Mas tu não tens cabeça para pensar? Berrava-lhe.
Gosto de ti-
Preciso de um tempo.
Gosto de ti.
Preciso de um tempo.
Gosto de ti.
Preciso de um tempo.
Não vás. Fica. Fica Comigo.
Comigo não vestes mais isso!
Tas a falar com quem?
Vais onde?
Com quem?
Fazer o quê?
Não vás. Fica. Fica comigo.
Tu não tens nada que falar da minha vida!
Pensei em dizer te para vires ter comigo mas...
Hoje não posso.
Não me faças pressão.
Gosto de ti.
Preciso de um tempo.
Gosto de ti.
Preciso de um tempo.
Gosto de ti.
Preciso de um tempo.
Já disse que não vais, porque eu não quero.
Podemos falar?
Não foste passar o fim de semana fora com os teus pais? Agora queres falar?
Não foste beber café com a tua amiga? Agora queres falar?
Silêncio. Dias... Semanas.
Liga-me. É importante.
Não vou ligar. Tenho mais que fazer.

...

Não acontece só aos outros.
Eu queria tanto, mas tanto escrever sobre isto de forma lúcida e perspicaz, queria ajudar quem se encontra de coração nas mãos. Entre a espada e a parede. De quem se embrulha em relações tóxicas. Relações que sugam a auto estima, relações que matam uma parte de nós que nunca mais será a mesma.
Pessoas que nos manipulam até que nós fiquemos despersonalizados para nos encaixarmos em alguém ou a um sítio onde nunca pertencemos.
É tão fácil fazer campanhas contra a violência.
Mesmo assim elas ficam.
Acham que ficam porque são burras?
Ficam porque são anos e anos a ludibriar, a moldar aquele ser submisso, que fica.
O que leva alguém a deixar que o sofrimento perpetue desta forma quase destruindo toda a sua integridade?
Eu gostava tanto, mas tanto de conseguir escrever sobre isto. Não é nenhum tabu para mim sabem?
Eu só sinto que é completamente irrelevante o que quer que eu diga. Vai continuar a acontecer. Em pleno século XXI continua a acontecer. Eu podia falar de outras culturas. Mas para quê? Olhem para os vossos vizinhos, os vossos amigos, os vossos próximos.
Sintam-nos.
Sintam.
E percebem. Eu talvez um diz compreenda. Para já. Quero terminar o ano com esta mensagem. Sendo esta a única forma em que a consigo transmitir. Confusa. Difusa.


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