storyteller

Vazios que não são preenchidos, todos temos.
Vazios que devem ser acarinhados, não julgados, agora sei.
Sabes, todos nós temos um buraco na nossa história, todos nós temos uma falha no coração.
Mas não podemos viver à sombra das lacunas da nossa história. Temos de guardar os pedaços de nós que valem a pena nessa história numa caixinha, guardar, não esquecer. São esforços em vão. Guarda os teus pedaços que não te pertecem mais, não poderás dar-te a ninguém, porque terás falhas que cortam.
Ter falhas não é mau.
Lima-as. Torna-as suaves. Torna-te suave, estás a tornar-te, para mim.
Mas eu sou uma contadora de histórias.
Eu reinvento-me, eu recrio-me, eu rescrevo-me.
E a contadora de histórias não morre.
E esta pode ser só mais uma história inventada pela minha cabeça, aliada ao coração.
Mas vale a pena ser escrita, vale a pena ser vivida. Mesmo que o fim seja o mesmo de sempre.
Talvez desta vez não.
Aquelas que quero escrever contigo, de ti, são boas, e eu não quero que morram. Eu não vou mais queimar páginas, eu aprendi a guardar os meus sentimentos na prateleira. Estou a aprender a deixá-los sair sem ser em páginas, a deixá-los sair realmente.
Mas para isso é preciso confiar, como confio numa página em branco e numa caneta na minha mão, que está diretamente ligada a mim, num laço inquebrável. É pele com pele, sabes?
Nunca saberei fazer amor com ninguém como sei fazer com as palavras na palma da minha mão.
Mas amor contigo, já faço, um laço, sempre houve, cheio de nós, mas sempre houve.
Inquebrável?
Não sei.
Mas se quebrar...
Se quebrar, vou limar as arestas e guardar-te na prateleira, com carinho, sempre com carinho. Tu sabes.
Guarda-me também. Como tu quiseres, como precisares, não te exijo nada, tu sabes, só o que me possas dar. Podes guardar-me?

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