Barcos
Estavam todos sentados de roda de uma mesa cheia de copos, whisky, cerveja, vinho, aos diferentes gostos. As conversas variavam entre trabalho, política, futebol, gajos, gajas, sexo e amor.
Entre adultos não há grandes tabus.
Risos, gargalhadas, olhares, tensões, o normal num grupo de amigos e desconhecidos, mas o ambiente era alegre.
Começou a tocar uma música, leve, sentida.
Ela tremeu.
Ele olhou para ela, estendeu-lhe a mão e não foi preciso falar para o convite estar feito.
-Esta não.
-Porquê?
-Apenas porque…
-Pertence a outro?
-Estás a fazer perguntas cuja resposta não queres ouvir. É passado, mas a ti nunca te vai pertencer, esta não.
-És tão honesta que doi.
-Já perdi muito por ser assim, mas prefiro perder amigos a ir contra os meus princípios…
-Posso ficar magoado mas a mim nunca me vais perder por seres honesta.
-É a aí que está a diferença.
Enquanto falavam a música não parava de tocar a ressoar em todos os cantos da mente dela, uma memória apenas, uma mão num corpo nu junto ao seu, pegar na mão dela e coloca-la junto do seu coração, “o amor dói, o amor falha”
No último quarto de música ela olha em frente e lá estava a mão, desta vez distante do coração, o olhar penetrante, que lhe via a alma nua, como sempre quando a olhava com aquela intensidade, dizia apenas “é a ultima oportunidade”.
Fitou-o durante minutos.
A música acabou.
-Parece que fizeste a tua escolha.
-Quem saltou do barco primeiro foste tu.
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