Personalidade deformada III
Dei por mim de lâmina na mão… Já não segurava em nenhuma há
muito tempo… pressionei contra a pele do meu antebraço, olhei para a janela e
via o por do sol, o laranja entre dois prédios que me fez divagar entre o que
sentia. Tentei ouvir o meu coração. Doi. Olhar nos olhos de alguém requer uma intimidade
quase impercetível, mas intensa. Olhos frios, olhar vazio. Isso doi. Olhei para
o espelho à minha esquerda, o reflexo dos meus olhos refletia o mesmo vazio, a
minha falta de rumo. Pressionei a lamina, o meu coração bateu, conseguia ouvi-lo.
O meu olhar ganhou vida. Talvez fosse isso. Já quis apenas sentir algo, estava
tão apática em relação ao mundo que me feri para sentir algo. Achei eu. Desta
vez era diferente. Desta vez quis substituir uma dor por outra, achei eu. Passei
o dia rodeada de dor, não a minha, o que tornou tudo pior foi sentir a dor como
se fosse minha. Porque nós somos assim, queremos ser frios, calculistas, já
sentimos em demasia, já deixámos de sentir, mas há um limbo temperamental entre
esses dois estados que se torna insuportável. Então congelamos. Até Recebermos
uma chamada, um nome que já não vemos à tempo de mais, atendemos, sentimos
lágrimas. Quando isso acontece o nosso coração para. Sentimos tudo o que nos
privámos de sentir. “Estou sozinha no mundo”. Chorei. “Estou a ir”. Fui.
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